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Há pouco levantou-se nas ruas uma poeira cor de tijolo,
grossa, que já invadiu o quarto de Daniel. Rosas de tempestade, enormes, acastanham o firmamento, do lado do
rio, onde o Sol, no começo do declínio, se alastra em colmeias de fogo. Mosquitos, traças, borboletas negras, moscas
varejeiras, insinuaram-se na casa. Mas não só. As baratas e mesmo os ratos, que
só costumam mostrar-se de noite (é difícil
escorraçá-los destes edifícios antigos), surgiram em pleno dia, parecendo
recear mais aquele aflitivo calor do que a perseguição das pessoas. A
rádio anunciava 38° à sombra. Não era afinal o desconhecido. Só que a tarde vai avançando, lentamente, e a
temperatura quase não se altera.
Entre um jovem biólogo e uma estudante de linguística, já inscrita no mestrado, não deveria em princípio haver tantas afinidades como há entre Daniel e Daniela. Por vezes dão a impressão de haver construído uma barreira contra
o mundo.
Daniel, não obstante o seu interesse avassalador pelo estômago dos lagartos, consta que faz poemas, o que, aliás, condiz com o seu tipo emaciado e longilíneo. Em todo o caso, nunca mos mostrou. São ambos educadíssimos,
sorriem, cumprimentam toda a gente na escada, mas preservam
muito, de facto, a sua intimidade.
"Creio", diz Daniel, "que há uma
quota-parte de delírio em toda a criação
artística."
"Há
também", diz Daniela, "uma contestacão do mundo e da sua moral. Escrever, fazer cinema,
talvez mesmo
pintar, sempre elaborar uma outra moral, inventar um outro bem e
outro mal, não achas?"
Daniel sorri-lhe com os grandes olhos esverdeados, de
pestanas demasiado claras. Com as suas existências tão lisas, alimentadas pelo estudo, pelos espectáculos culturais, vão sempre muito mais longe em palavras do
que na modesta realidade que percorrem.
(URBANO TAVARES RODRIGUES)