Unseen for HT week 3:

Esquesce-se muito que a expressão literária de dada época não é apenas constituída pelo que contemporaneamente se produz nas letras, mas por todo o património literário nacional tal como então se selecciona e interpreta, e pelas traduções e ainda pelo que lê e assimila em outras línguas. Ora, devido à própria rarefacção em número e ao nível relativamente baixo de vida e cultura das nossas próprias camadas letradas em comparação com as de outras países europeus, fossem essas camadas de clérigos, aristocratas, funcionários ou burgueses a verdade é que o património dos seis para sete séculos de literatura portuguesa apresenta lacunas, largos espaços em branco por vezes, se compararmos esse património com outros que se desenvolveram paralelamente. Um exemplo muito apontado é o do teatro ou do ensaio filosófico.

Outro exemplo, e esse é que faz ao caso, é o seguinte: há na literatura portuguesa uma grande carência de tudo o que seja expressão exuberante da simples alegria de viver, de viver mesmo apesar, e através, das maiores agruras ou tragédias. A saudade e a tristeza são o grande emblema da nossa lírica e da nossa novelística. Ver os grandes dramas individuais ou colectivos como uma grande festa para os olhos, para os sentidos, para o corpo e para a inteligência, para a inteligência e para a fantasia, não é típico da atitude literária portuguesa, embora, evidentemente, ocorra aqui ou além em Gil Vicente, n'Os Lusíadas e na Peregrinação de Mendes Pinto. A atitude literária portuguesa típica é a de meditar sobre as razões de se ser triste, sobre as contradições do nosso contentamento descontente, sobre o além (ou a ausência causal) de todas as nossas insatisfações.

ÓSCAR LOPES