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O ministro Teófilo Duarte tinha do Império uma concepção semelhante à de Groucho Marx no filme em que era gerente dum grande hotel e mandou mudar os números de todos os quartos: «Mas pense na confusão!» «Ora, pense mas é no gozo!». De modo que decidiu que todos os funcionários superiores tinham de trocar de colónia. No após-guerra parecia começar a haver tendências separatistas em Angola e em Moçambique, e o Ministro queria evitar futuros Brasis. Ainda recentemente houvera uma tentativa de abrir uma fábrica de bicicletas em Lourenço Marques que fora necessário reprimir decisivamente. Se nem em Portugal as havia, por esse caminho acabava-se por não se saber quem< mandava em quem. Pela mesma ordem de ideias também se impunha proibir quaisquer veleidades de universidades locais: a hegemonia nacional dependia de mandar para a metrópole os futuros doutores e engenheiros jogar ping-pong na Casa dos Estudantes do Império com o Amílcar Cabral e o Agostinho Neto, embora alguns moçambicanos mais influenciáveis preferissem em vez ir para a África do Sul demonstrar que eram mesmo brancos. E de facto o que veio a acontecer nem foram Brasis.

Em Moçambique, com excepção da RAF na praia do Bilene e algum contrabando, a Guerra de 39-45 tinha acontecido sobretudo no Clube Hotel de Lourenço Marques. O contrabando era, por exemplo, o de um despachado farmacêutico local que conseguiu um contrato clandestino através de um cúmplice devidamente credenciado em Joanesburgo para o fornecimento de drogas ao exército sul-africano. Os medicamentos escasseavam no mercado livre e o negócio tinha de ser clandestino porque Portugal era neutro. Mandava em vez uns pós esbranquiçados que punha os criados a moer ao fundo do quintal, uns líquidos inocentes ou umas pastilhas de farinha e corantes vários, conforme as encomendas, que ele próprio preparava nas traseiras da farmácia com a mulher, uma ex-bordadeira com mãos de fada, para não dar nas vistas.

(HELDER MACEDO)