Unseen for week 1, MT 2008

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Devagarinho, fez girar a maçaneta de metal e empurrou a porta: não estava fechada à chave. Uma frincha vertical de luz fendeu a escuridão do patamar como um golpe de espada. Espreitámos: um trecho de cama desfeita, móveis e roupas em matinal desalinho, cortinados vaporosos na janela entreaberta. O nosso amigo já estava a pé. Abrimos um pouco mais a porta, e foi então que o vimos: diante do espelho do amplo guarda-fato, em cuecas, com a fralda da camisa de fora, tesa da goma, as ligas esticando as peúgas de seda nas pernas roliças, e os sapatos engraxados, o Mansinho traçava a risca do cabelo. Demorámo-nos a observá-lo em silêncio, empolgados, como sempre que espiamos as acções de alguém que julga estar só, máxime em frente do espelho. Nada revela tão bem o carácter dum indivíduo. Durante uns bons cinco minutos, contendo o riso, gozámos o espectáculo do Homem em Frente da Sua Própria Imagem. De escova e pente em punho, o nosso amigo cumpria o ritual sagrado e melindroso, dando ao penteado todo o apuro que era o traço dominante da sua personalidade. Com a testa franzida, o rosto tenso e a língua de fora, o Mansinho fez e desfez a risca meia dúzia de vezes. Depois ficou algum tempo a dar retoques leves nas ondas negras e luzentes do cabelo. Inclinava a cabeça para um lado e outro, recuava e avançava, espiava-se de nariz no espelho, tornava a recuar, repuxava as ondas com a escova, fazia trejeitos e caretas, e remexia a boca num discurso mudo. Meneava o corpo e gesticulava com vigor. Ficou por instantes imóvel, numa pose senhoril, e por fim, satisfeito com a sua obra, foi arrumar a escova e o pente no toucador. Voltou para o espelho e, sempre movendo a cabeça em trejeitos de satisfação, e cantando entre dentes, começou a meter a fralda da camisa no cós das cuecas. Nesse momento a nossa gargalhada espirralhou à porta, e ele virou-se, alarmado e vexado. Entrámos numa grande risota.

 

(JOSÉ RODRIGUES MIGUÉIS)