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A despolitização emblemática do agente da ex-polícia fascista com todas as conotações que ele comporta (a moral e a metodologia, o espírito de corpo e a casta social) é outra etapa da reabilitação, onde se pretende sobretudo aproximar o pide da Comunidade que sempre o marginalizou. No império da opressão ele era o homem a dois rostos e do poder secreto que as populações evitavam temerosamente; agora é o indivíduo que o corpo social se recusa a absorver, temeroso ainda dos seus vícios e das suas represálias. Marginalizado, uma vez mais.

Essa desmarginalização ou essa procura de identificação com a práxis colectiva processa-se por sucessivos desfocamentos da responsabilidade e do comportamento repudiado, ao mesmo tempo que se traduz na adopção do estilo e dos símbolos correntes. «A PIDE está com o povo!» gritavam os torturadores detidos em Alcoentre, parafraseando o slogan do momento e isso, em vez de um grito provocatório, era já uma tentativa primária de identificação com o meio social. Paralelemente, quando o general Galvão de Melo autorizou que o cadáver de um pide saísse da cadeia da Penitenciária, envolvido nas honras da bandeira nacional, não estava apenas a absolver antecipadamente um marginal que aguardava julgamento: facilitava a reintegração, nos conceitos comuns da sociedade, de um membro da «associação de malfeitores» (classificação oficial) que, semanas antes, tinha disparado sobre o povo - e matado.

A partir daí a trajectória recuperadora não se deteve. A pouco e pouco o pide iludiu a conotação de «malfeitor» ou de «inimigo público» para readquirir, na metamorfose da «Extinção democrática», a definição salazarista de indivíduo incompreendido pelas populações, e desse primeiro triunfo transitou ao estádio seguinte: «vítima (sic) de uma situação gritantemente injusta». A avançada, sabe-se, iria prosseguir com a libertação provisíoria.

Cá os temos, pois. E não só forçaram as portas da legalidade como pretendem assumir uma face social que jamais ousariam ter sonhado.

José Cardoso Pires