Translate into English:
Na história de Luís Silvério há os factos públicos
ou particularmente conhecidos, que me limitarei a expor acompanhados duns
breves comentários; pois isso já o leitor o deve suspeitar: muito difícil me
seria abster-me totalmente de comentários, ao expor um caso que me passou tão
próximo. E há os enigmas, as incoerências, os problemas, as perplexidades
(porventura insignificantes para os solucionadores dos grandes problemas,
todavia interessantíssimos para o miúdo literato psicólogo) que em nós levantam
o natural desejo de acharmos um fio lógico, uma conciliação racional, que ligue
estes factos aparentemente inconciliáveis entre si. Aqui se torna difícil a
minha posição de narrador psicólogo. Com toda a franqueza exporei ao leitor o que
imaginei para resolver as minhas dificuldades. Acredite o leitor, eis uma
franqueza que raramente se tem; uma lisura que não compete esperar dum
literato. Pois imaginei o seguinte, espante-se o leitor: invocar o espírito do
meu defunto camarada, registar as suas respostas às minhas perguntas, e essas,
transmiti-las ao leitor sem interferências minhas; que eu só intervirei
dialogando. O que a tal método oporão os meus camaradas oficiais do mesmo
ofício, por demais o sei! Dirão que não passarão de respostas minhas,
interpretações preexistentes no meu subconsciente. E para isto já me farão o
favor de crerem na minha boa fé. Nem todos mo farão. Aliás, nenhum acreditará
na minha boa fé, senão considerando-me pateta por natureza ou senilidade. Com
efeito, um racionalista a crer em respostas de fantasmas, a invocar espíritos
como os fiéis das mesas animadas, não será vulgar! Por sua vez crêem eles que
tudo se reduz a alterações dos nossos próprios fios nervosos, da nossa própria
massa cinzenta. Para além do que, nada lhes há.
(JOSÉ RÉGlO)