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Contemporaneamente, a ficção realista tende cada vez mais a ser ou memórias ou reportagem. Mas — e por certo a crítica, presa aos seus cómodos esquemas tradicionais, será, como a história literária, a última a aperceber-se do real sentido do fenómeno — isto não sucede por um retorno simultâneo a padrões românticos, por um lado, ou naturalistas, por outro. E nem num caso nem no outro está a processar-se por um retorno ao realismo fotográfico, jornalístico, etc., ou ao exibicionismo romântico de o autor ser mais importante do que a obra e esta ser interessante pelo quanto e como o autor nela se exibe. Em sentido convergente, também contemporaneamente as memórias ou a reportagem tendem, cada vez mais, a ser depoimentos pessoais sem pretensão à objectividade. Porquê este duplo movimento convergente? Porque, no mundo actual, é cada vez mais evidente que toda e qualquer visão do mundo é estética, e que a pessoa humana nada tem a opor à arregimentação, ao conformismo, à nivelação, senão a sua própria existência, que, criticamente, se forma e define, ainda que mutavelmente, não nas suas relações de aderência ou de oposição a um determinado conjunto de valores dominantes, socialmente impostos ou reconhecidos como válidos (qual antigamente acontecia) mas na consciência de que nenhum sistema de valores é válido que não na pessoal verificação a que seja submetido e em que seja livremente aceite ou recusado.

(J. de SENA)